FICHA TÉCNICA:
Título: Ecos
Edição: Câmara Municipal de Aljezur
Ano: 1995
Execução Gráfica: Lito 2 - Artes Gráficas, Lda
Dep. Legal: 91 508/95
O DESVENDAR DO MISTÉRIO DA POESIA
A gestação poética fá-la o Poeta no mais profundo de si mesmo, útero do mistério que o envolve desde a fecundação pelo espírito. É nesse cadinho que o verbo vai tomando forma, numa lenta maturação, irrompendo do caos que lhe é anterior, até se formar, em palavras que lhe dão forma e que lhe dão vida, o cântico luminoso do poema.
É sempre assim, venda daquele mistério primeiro que habita o Poeta, a Poeta, que a poesia brota como a água límpida da fonte da vida: escoando-se lentamente, gota a gota ou rompendo a terra, num tumulto. E mesmo se as palavras nos dizem, claramente, da voz da alma do Poeta, sempre o mistério há-de permanecer a envolver o poema, porque sem o mistério não existe poesia; ela se alimenta dele e cresce nele, como a seiva vivifica a árvore até que esta rebente em flor.
A poesia é, assim, sobretudo, um acto de revelação do mais profundo do poeta, da sua maior intimidade, da sua exaltação interior, da sua cosmogonia. E não é sem dificuldade, sem um pudor que consiste em dar a ver aos outros "o que achou no caminho e nunca é fácil, nem alegre, nem irresponsável revelar o que se encontrou ou sunhou nas galerias da alma", que o Poeta se expões, se deixa ver, se despe.
Nessa nudez da alma se afirma perante todos e perante si mesmo: é a sua forma de expressão, de comunhão com o Homem, uno e diverso. É a sua forma de amar, mesmo quando o que revela não é plenitude da luz, não é a beleza promordial. Do dia e das trevas, do silencio e do ruído, do esplendor e das sombras, do fascinante e do repugnante, do amor e do ódio é feito o Homem e é dele que o Poeta diz, é dele e por ele constroi a palavra, mesmo se fala da terra e diz do mar, pois que o Homem é a razão, a medida, a suprema criação de Deus ou dos deuses que o povoam, lhe sacrificam e o sacrificam, em rituais antigos que se confundem com o nada, com o mistério, esse mistério que é, afinal, a sua essencia divina e humana.
A poesia é, em Carolina do Vale, a expressão mesma desse mistério insondável e irrecusável, dessa revelação dolorida de si mesma: das suas certezas e das suas dúvidas, dos seus sonhos e das duras realidade, dos seus anseios e das suas ansiedades, dos seus encontros e desencontros, dos amores e dos desamores, da saudade, da terra verde e húmida de orvalhos, de lágrimas e de suor, do mar acalmado, murmurante de marés ou revoltoso, da liberdade que é uma das primeiras razões da nossa dignidade.
Poetisa do amor que nos habita - "que o amor se construa através do sonho/sem limites, sem barreiras" - ou nos rejeita - 'perderam-se no tempo os meus desejos/e a verdade que amei já não existe", da natureza humanizada, particularmente do mar, das areias, das vagas alterosas ou do "mar calmio" todos os seus poemas revelam o conhecimento apaixonado, por vezes amargo, por vezes desencantado, do Homem, procuram na memória -sua e do tempo- a memória de tantas vidas que se fundiram e confundiram com avida, ela mesma um cântico sagrado e simultaneamente profano; vida, afinal, na sua plena dimensão.
"Ecos", este livro belíssimo que vos abro é, exactamente, um tranquilo caminhar pela alma, resguaradada com pudor, de Carolina do Vale, uma aventura, por vezes sobressaltada, no mistério da poesia. Da autora se pode, dizer, ao revelar-se assim, que é Poeta de parte inteira porque dela jorra, claríssima, melodiosa e límpidaa palavra poética, "rumorosa até quando nos diz do seu silêncio".
Junho de 1995
João Mattos e Silva